Valor Online | 12/01/2018 05:00:00
Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

Katsuhiko Hasegawa, o produtor brasileiro Adolfo Vieira e o exportador britânico Grant em frente à Café Paulista No coração de Ginza, o bairro comercial mais chique de Tóquio, uma cafeteria com o improvável nome de Café Paulista – escrito em português mesmo – chama a atenção. Cafés do Brasil, Colômbia, África, América Central e Ásia estão no cardápio dessa que é uma das mais tradicionais cafeterias da capital japonesa. Mas não foi sempre assim. E daí vem a explicação para um nome tão familiar.

A Café Paulista foi aberta em 1911 por Ryo Mizuno, o empreendedor japonês que trouxe ao Brasil os primeiros imigrantes de seu país para trabalhar em lavouras de café. Foi ele o responsável pelo Kasatu Maru, o primeiro navio com imigrantes japoneses, que aportou em Santos em 1908. Naqueles anos, conta Katsuhiko Hasegawa, atual dono da Café Paulista, vigorava no Brasil uma política de intervenção no mercado de café – o chamado Convênio de Taubaté – para evitar a queda dos preços devido à superprodução do grão. Além de retenção do café, a estratégia incluía a busca de novos mercados para vender os excedentes do produto brasileiro.

Em entrevista ao Valor, via skype, Hasegawa conta que Mizuno foi, então, incumbido de levar o café brasileiro ao Japão para abrir o mercado do país asiático ao produto. Com esse objetivo, criou uma companhia chamada Café Paulista em 1910. A cafeteria com o mesmo nome seria aberta um ano mais tarde. Nos primeiros três anos, o café produzido em São Paulo foi doado ao Japão, relata Hasegawa, já que era interesse do governo brasileiro ampliar os clientes para o produto no exterior. Foram, no total, pouco mais de 7 mil sacas de café, no período de três anos, conforme relatos históricos.

“Quando Mizuno tentou vender o café do Brasil, encontrou dificuldades, porque ninguém conhecia café no Japão, todo mundo tomava chá verde”, diz Hasegawa. Então, o empresário foi a Paris “para ver como os europeus estavam consumindo café”, acrescenta. Visitou o tradicional Café Procope, o mais antigo café de Paris, e na época, a cafeteria mais popular da capital francesa. “Mizuno foi lá ver como os franceses tomavam café e, de certa forma, copiou o estilo francês de cafeteria e trouxe para a Café Paulista”. A cafeteria passou a atrair jornalistas que trabalhavam num periódico localizado nas proximidades, estudantes e pessoas famosas. “Foi um grande sucesso”, afirma. Segundo o atual dono da Café Paulista, a cafeteria ganhou esse nome porque à época de sua fundação o Estado de São Paulo era o maior produtor de café do Brasil. Naquela época, o estabelecimento vendia apenas café brasileiro, diferentemente de hoje.

A Café Paulista entrou na vida da família Hasegawa em 1947, quando Kazue Hasegawa, avô de Katsuhiko Hasegawa, comprou a empresa de Mizuno. “Mizuno estava mais interessado em desenvolver uma colônia japonesa no Brasil, em levar imigrantes, então depois de uma grande terremoto no Japão ele foi para o Brasil”, conta o empresário. Kazue Hasegawa era torrefador de café e trabalhava para Mizuno. Depois dele, o negócio passou a ser gerido por seu filho Hirokazu Hasegawa, hoje com 89 anos. Desde 1988, a operação é tocada por Katsuhiko, da terceira geração da família, que viveu no Brasil por um ano, em 1983, graças a um programa de intercâmbio da Sophia University, instituição fundada por jesuítas no Japão, e da PUC-RS. A Café Paulista sempre funcionou em Ginza, ainda que em números diferentes. O nome do estabelecimento, no entanto, mudou temporariamente durante a Segunda Guerra Mundial.

“Durante a Segunda Guerra, como o Brasil estava do lado dos aliados, e os japoneses do lado da Itália e da Alemanha, o país se tornou um inimigo para o Japão. Por isso, o nome Café Paulista foi banido pelo governo militar japonês”, conta Hasegawa. Então, a empresa passou a se chamar Nitto Coffee, que significa Japan Coffee, explica. Mas depois que o país foi derrotado no conflito, o nome Café Paulista passou a ser usado novamente. E, desde então, segue quase como uma vitrine permanente para o café do Brasil.