Estadão PME | 10/11/2017 09:37:26

A compra e o uso do café nunca esteve tão alto. De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), em sua série histórica, que acompanha o setor desde 2009, o consumo de café chegou a seu maior patamar no ano passado: 6,2 kg por habitante/ano. Diante desse cenário, cafeterias têm investido em modelos diferentes, focados na conveniência e flexibilidade do público.

Esse é o caso do Lemni Café, que fica no centro de São Paulo (SP). No estabelecimento, os clientes não pagam pelos produtos, mas sim pelo tempo que permanecem no local. Na primeira meia hora, o preço é de R$ 15 e, após isso, a cada quinze minutos, mais R$ 3 são adicionados à conta. Durante o período, o cliente pode consumir os cafés – coado, na prensa francesa e expresso – e também as sugestões de pães, bolos e demais quitutes, que mudam a cada dia.

O modelo, como conta a dona do empreendimento Rebecca Nogueira, foi inspirado em uma cafeteria francesa que ela conheceu quando estava fazendo intercâmbio no país. “Eu achei muito honesta a proposta, achei que o lugar era um catalisador humano”, afirma. Logo, a ideia de criar um espaço que prioriza a convivência e proporciona uma experiência mais humana foi o que a motivou a trazer esse modelo para o Brasil.

Depois de três anos com a ideia na cabeça, Rebecca criou o Lemni no ano passado, sempre com a preocupação de ser mais um espaço de convívio do que uma cafeteria. “A gente quis criar esse fôlego no meio da cidade, as pessoas estão muito estressadas e pressionadas”, afirma. “O que a gente quer vender são experiências e não produtos”. A empreendedora conta que os clientes acabam levando os seus projetos para dentro do espaço, promovendo oficinas e palestras de autoconhecimento pessoal e profissional.

Assim como Rebecca, o barista Eraldo Pereira também pensou na flexibilidade e conveniência do cliente. A Espresso Arte Coffee, sua cafeteria, localizada no Vila Butantan – um espaço de convivência que agrega iniciativas diversas na zona oeste de São Paulo – é focada no modelo ‘take-away’, no qual bebidas ou comidas são preparadas e embaladas para que o cliente consuma no local que desejar. No caso do empreendedor, o foco do estabelecimento é todo em bebidas, de cafés coados e blends até cervejas que tenham o grão em sua composição.

O conceito de Pereira é não prender o consumidor para que ele possa usufruir do entorno, que tem espreguiçadeiras, lojas e outros empreendimentos gastronômicos. “O pessoal vem para o Vila Butantan circular, sair do escritório e relaxar um pouco a mente”, afirma. “Não quero que o cliente fique preso a uma mesa, tenha que pegar uma comanda ou espere o garçom servir”. Para isso, a cafeteria foi projetada em um contêiner de 15m², sem mesas e apenas com o balcão para retirada dos produtos.

Iniciativas como a do Lemni Café e do Espresso Arte não são positivas só para os consumidores, mas também para a indústria do setor. Na perspectiva do diretor executivo da Abic, Nathan Herszkowicz, abrir uma cafeteria é uma das formas que facilita a demanda pela commodity e crie um sistema que incentiva a qualidade do café vendido. E o cliente está disposto a consumir tudo isso. “Ele têm interesse, é curioso, aceita inovações e quer experimentar novas formas de preparo do caf, afirma. “Um dos lugares que você mais vê esse tipo de iniciativa são as cafeterias.”

Além do setor, o mercado também exige mudanças, já que o perfil do consumidor mudou nos últimos anos. “Os brasileiros estão mais informados sobre o produto e suas diferentes variações”, diz Herszkowicz. Essa “educação” sobre a commodity fez com que o consumo de café não diminuísse na crise econômica dos últimos anos. “Muitos substituíram bebidas por outros alimentos, ou por mais bebidas de uso diário”, afirma o diretor da Abic. “Houve diminuição de achocolatados, sucos prontos, mas o café não”. A expectativa do consumo do grão é de 3,2% neste ano, ante a expectativa do início do ano de 1,5%.