Rede Peabirus – 08/08/2019

Por Leandro Fidelis/SafraES/CNC

Algo está mudando nos sítios produtores de café. Ao lado da casa, a tulha e o terreiro não são mais as únicas benfeitorias da propriedade. Nos últimos cinco anos, elas vêm dividindo espaço com um cômodo mais reservado, que acomoda um investimento ainda alto. E não é mais o tão sonhado carro de outrora.

As microtorrefadoras chegaram aos quintais. Focados na produção e no mercado de cafés de excelência em qualidade, os cafeicultores dedicam-se à industrialização do próprio grão. Os produtores adquirem equipamentos como os de uma indústria convencional, mas em tamanho reduzido, para a produção em pequena escala e controle total da torra.

O movimento já é considerado a quarta onda do café, subsequente àquela caracterizada pelos métodos de extração diferentes, cafés de 90 pontos, baristas e cafeterias badaladas e populares nas redes sociais. No Espírito Santo, que concentra 60 mil propriedades produtoras de café (sendo 40 mil de Conilon e 20 mil de Arábica) estima-se que 500 produtores tenham microtorrefação.

De acordo com o engenheiro agrônomo do Incaper, Fabiano Tristão, o número de torrefações familiares tem crescido de forma exponencial impulsionadas pela terceira onda. “No último levantamento, há dois anos, eram aproximadamente 600 pequenas marcas de cafés no Estado”.

Segundo outro agrônomo do Instituto, Enio Bergoli, deste total, mais de 90% são produtores de café Arábica. Na região serrana, Estevão Douro, a mulher e os filhos, de Victor Hugo (Marechal Floriano), lucram com a venda de “grãos colhidos na hora certa, garantindo sabor e qualidade”.

Estevão conta que o investimento em microtorrefação surgiu com objetivo de agregar valor aos cafés que já eram produzidos e vendidos no mercado tradicional. “Com a agroindústria na propriedade, podemos vender nossos produtos já prontos para o consumidor. Isto nos dá mais margem de lucro no valor final da saca”, afirma.

O filho Thiago Douro destaca a busca por uma produção sustentável, com a entrega de cafés de alta qualidade, com toda rastreabilidade (lote, talhão, variedade, qualidade da bebida) e preocupação socioambiental. “Isto é garantia de maior valorização do produto quando ele chega ao mercado”.

A nova geração de cafeicultores “surfa” com mais facilidade na quarta onda do café. Mais conectados que os pais, os filhos dos produtores tornaram as redes sociais, principalmente o Instagram, uma vitrine para os negócios e buscam estudar mais a fundo as técnicas de torrefação.

Cooperativas

Bergoli ressalta também o crescimento do número de marcas de cafés especiais das cooperativas cafeeiras nos últimos anos. Destaque para os da marca Pronova, de microlotes dos associados da Cooperativa Agropecuária Centro Serrana (Coopeavi), e o “Póde Mulheres”, da Cooperativa dos Cafeicultores do Sul do Estado (Cafesul). “Este indicador representa a comercialização dos produtores de forma indireta, pois a gestão e a produção são realizadas pelos cafeicultores”.

Em negociação inédita, a Coopeavi exportou 12 toneladas de cafés finos torrados para a China no final de julho. O volume corresponde a um total de 2.600 caixas com 5 kg cada, embaladas a vácuo, e vai chegar a cafeterias e empresas do país asiático. O produto apresentou notas sensoriais acima de 84 pontos.

O gerente de Negócio Café da cooperativa, Giliarde Cardoso, ressalta que há dois anos a Coopeavi vem trabalhando para entender mais sobre o mercado de cafés industrializados e agregar valor ao produto dos cooperados. “A exportação para a China é um grande avanço neste processo de verticalização de mercado. Por meio da industrialização, a gente agrega valor ao café torrado, assim como fazemos com os cafés especiais verdes”, diz.