Mercado – 05/08/2019

A fábrica de São Mamede de Infesta foi uma das duas seleccionadas a nível mundial para concretizar a aliança entre estes dois gigantes. A nova linha vai valer 27% da produção de café já em 2020.

Menos de um ano após ter sido anunciada a aliança entre a Nestlé e a Starbucks para a produção de café a nível global, a fábrica portuguesa da Nestlé em São Mamede de Infesta, Porto, uma das duas seleccionadas à escala mundial para integrar esta parceria, já está a produzir e a exportar café.

Em poucos meses, os mercados de exportação do café Starbucks a produzir por esta unidade da Nestlé Portugal deverão atingir mais de três de dezenas de países nos cinco continentes, desde os principais mercados europeus (Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Espanha, Holanda, República Checa, Suíça, Áustria, Hungria, Grécia, Eslovénia e países do Adriático), assim como países de outros continentes, como a Turquia, Dubai, Koweit, Arábia Saudita, África do Sul, China, Malásia, Taiwan, Singapura, Tailândia, Indonésia, Filipinas, Brasil, Chile e países da Oceânia. E esta lista tem tendência para aumentar, até porque a partir do final deste mês de julho vai alargar o número de mercados de exportação com que esta unidade vai começar a trabalhar.

“A fábrica da Nestlé no Porto tem uma capacidade de produção entre as 16 e as 17 mil toneladas de café por ano, dependendo do mix de produtos. Com esta nova linha de produção para a Starbucks, a capacidade da fábrica não aumentou, mas irá permitir-nos passar de uma quota de 27% de exportações em relação à produção com que encerrou 2018, para uma previsão de 45% de exportações do total produzido já no final deste ano”, revelou, em declarações exclusivas ao Jornal Económico, Rui Vieira, director desta fábrica.

O mesmo responsável sublinha que, “em termos globais, esta parceria permitirá à fábrica da Nestlé no Porto ter um aumento de 35% no seu volume de negócios anual face aos valores precedentes”, sem revelar os valores atingidos pela faturacção desta unidade. Estima-se que 27% da produção total de cafés desta fábrica seja da responsabilidade da marca Starbucks já em 2020.

Hoje em dia, esta fábrica da Nestlé produz cinco marcas de café – Buondi, Sical, Nescafé, Tofa e Christina, estas duas últimas de cariz mais regional. E foi esta experiência de décadas, nomeadamente no domínio da torrefacção, que levou o quartel-general da Nestlé, na Suíça, a seleccionar esta unidade para produzir café no âmbito da aliança com a Starbucks divulgada em agosto do ano passado.

A importância da torra e das novas tendências de consumo

Através desta parceria global no mundo dos cafés, a Nestlé passou a deter os direitos perpétuos de comercialização dos produtos embalados de café e chá da Starbucks para os consumidores em todo o planeta, fora dos estabelecimentos Starbucks e excluindo os produtos ready-to-drink. A nova gama de produtos da Starbucks a sair da fábrica da Nestlé no Porto é constituída por oito blends, três de café em grão e cinco de café moído, divididos em três tipos de torra – blonde roast (torra clara), medium roast (torra média) e dark roast (torra escura). Este é um conceito fundamental para a Starbucks e pode marcar uma alteração de paradigma no mercado nacional, como nos explica Ana Mónica Fernandes, responsável da Nestlé pelo marketing dos produtos Starbucks e dos cafés torrados.

“A prática da Starbucks vem introduzir um novo paradigma de classificação do café, em torra clara, média e escura, o que irá ajudar as pessoas a perceberem qual é que se adapta mais ao seu gosto. Segundo os especialistas, a torra clara é suave e aromática, a torra média é suave e equilibrada e a torra escura é forte e encorpada”, esclarece esta responsável.

Ana Mónica Fernandes alerta ainda para o facto de, “no mercado nacional, a maior parte das marcas se focar na intensidade, mas é preciso dizer que não existe uma escala global, universal, uniforme para definir essa intensidade”.

Outra questão que os produtos da Starbucks pretendem mudar no mercado doméstico dos cafés passa pela alteração dos padrões de consumo. “Portugal está focado no consumo de ‘expresso’, mas as camadas mais jovens da população, os novos consumidores que entram no mercado do café em Portugal, estão a preferir cafés como uma outra forma de degustação. Queremos com esta aliança reproduzir as novas tendências de consumo que se detectam já nas lojas da Starbucks em Portugal. Ou seja, em vez de tomar um shot de cafeína, prefiro tomar um café, mais longo, da marca Starbucks”, assume Ana Mónica Fernandes.

Maria Teresa Mendes, directora da área de negócio de Cafés Retalho da Nestlé, partilha a mesma opinião: “queremos tirar o máximo partido da experiência de consumo das lojas Starbucks, o designado 3rd place [3º lugar] para desfrutar do café, a seguir a casa e ao trabalho”, garante esta responsável, acrescentando que “é preciso notar que a Starbucks ainda não tem muitas lojas em Portugal e, por isso, nós vamos ser o primeiro ponto de contacto dos consumidores portugueses com a marca Starbucks, principalmente no segmento roasted & ground [moído e torrado], em que o mercado português é muito promissor”.