Valor Online | 29/04/2019 05:00:01

Silas Brasileiro, do CNC: reflexos da bienalidade devem influenciar safra

Os preços internacionais do café preocupam os produtores em razão do excesso de oferta global e da atuação dos fundos internacionais na Bolsa de NY, referência mundial para fixação de preços da commodity. Em abril, pela primeira vez no ano, a cotação caiu abaixo de US$ 0,90/libra-peso. Em média, os preços no mercado doméstico recuaram 20% em relação ao ano passado. Na segunda quinzena de abril, o preço médio da saca de 60 kg do tipo arábica girava em torno de R$ 370,00; em novembro estava em R$ 441,59.

Já no âmbito doméstico, as boas notícias predominam. De acordo com projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra 2019/2020 (que começa a ser colhida em maio) deverá ficar entre 50,48 milhões e 54,48 milhões de sacas, volume inferior ao recorde histórico de 61,65 milhões de sacas da última colheita, mas ainda assim acima das previsões pessimistas. Este ano, a safra é menor, de acordo com a bienalidade própria da cultura.

Por sua vez, as exportações no primeiro trimestre registraram 9,9 milhões de sacas, alta de 25,7% ante igual período do ano passado, de acordo com dados do Conselho Nacional dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), reforçando a histórica posição do país como maior produtor e principal exportador mundial. Ao mesmo tempo, tem se mantido em alta o consumo de café no mercado doméstico, motivado principalmente pelo surgimento de cafeterias especializadas e marcas certificadas de cafés gourmet, além do crescimento do café em cápsulas.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), o consumo interno (torrado e solúvel) foi de 21 milhões de sacas, com crescimento regular acima de 2% ao ano desde 2008. Segundo Silas Brasileiro, presidente executivo do Conselho Nacional do Café (CNC), o impacto dos baixos preços tem sido absorvido pelos produtores, mas o quadro requer cuidados especiais. “Há contratos futuros fechados há um ano na faixa de R$ 550,00/saca. Mas, há os reflexos da bienalidade negativa da safra, que devem influenciar na próxima. Em situações semelhantes, os produtores devem se preocupar em reduzir os custos com insumos e manejo, buscando renovar os pomares com mudas mais resistentes ao clima e às pragas”, afirma.

Com 14.500 cooperados em SP e Sul de MG, a Cooxupé foi responsável por 8,4 milhões de sacas na safra passada. “Na próxima, haverá uma quebra de 15%. Estamos preocupados. O custo de produção é de R$ 383/saca. Talvez haja necessidade de políticas públicas”, diz Carlos Augusto Rodrigues de Melo, presidente da cooperativa.

Para Ricardo Lima de Andrade, superintendente da Cocapec, que reúne 2,2 mil produtores da Alta Mogiana (SP e MG), o momento exige criatividade. “O produtor precisa fechar contratos futuros ou trocar o café por insumos”, diz.

Em junho, está prevista a liberação de R$ 5,07 bilhões por parte do Funcafé, que são usados para armazenagem e despesas de custeio. O café é o único item do agronegócio que tem um fundo exclusivo, que vinha sendo gerido pelo Conselho Deliberativo da Política do Café (CDPC), órgão extinto pelo presidente Jair Bolsonaro, no início de abril.

Para o engenheiro agrônomo Celso Vegro, pesquisador cientifico do Instituto de Economia Agrícola (IEA), a tecnologia no aprimoramento dos grãos é um diferencial do café brasileiro. “Cerca de nove milhões de sacas exportadas são de cafés diferenciados (especial e gourmet), que conseguem preços até R$ 40/saca acima dos tradicionais. Quem investiu em qualidade, está colhendo os frutos”, afirma.