Empresas e Negócios 12 de Março de 2019

Ideia é dar sustentabilidade à cadeia de produção no fase pós uso do café; produtos são vendidos na internet e em lojas

Por Eliane Silva, de Ribeirão Preto

café-borra-biojoia (Foto: Divulgação)

O café perdeu o status de principal produto da agricultura brasileira, mas ganhou o status de joia na criação da designer Ana Paula Naccarato. Formada na FAAP de Ribeirão Preto (SP), cidade que teve o apelido de capital mundial do café até a crise de 1929, Ana Paula foi às cafeterias buscar os resíduos da produção para criar acessórios chamados de biojoias e objetos de decoração que estão à venda pela internet e em algumas lojas físicas de Ribeirão, Campinas, Rio de Janeiro e mais recentemente em São Paulo capital.

biojoia-cafe-borra (Foto: Divulgação)

“Percebemos uma oportunidade de inovação, trazendo sustentabilidade na cadeia produtiva do café na fase pós-uso. Já há boas práticas na cadeia do café margeando o tema de sustentabilidade como a produção orgânica e a proteção dos pequenos produtores e trabalhadores. Agora, depois do uso, só tínhamos iniciativas de reciclagem de embalagens”, diz Sérgio.

A cada semana, eles coletam cerca de 15 kg de borra de café em cafeterias de Ribeirão. O material recebe a adição de resinas vegetais no ateliê de produção e se torna um composto que depois de 24 horas é moldado para se tornar brincos, colares, pulseiras, bandejas, relógios, vasos, luminárias e até revestimento de parede. Todo o processo é a frio, sem uso de energia.

No total, o ateliê fabrica mais de 50 modelos de peças, todas feitas artesanalmente. O carro-chefe são os relógios de parede. Segundo Sergio, o produto pode ter contato com água, é extremamente durável e, quando descartado, não agride ao meio ambiente. O investimento inicial dos sócios foi de R$ 140 mil e toda a receita é reaplicada na empresa. A startup busca, no entanto, financiadores para escalar a produção e prospectar novos parceiros.

biojoia-cafe-borra (Foto: Divulgação)

A Recoffee tem parceria com o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) para desenvolvimento da tecnologia e está testando resíduos de outras indústrias como a de tecidos jeans para a criação de objetos de design.Questionado por que a escolha da borra do café, já que há tantos outros resíduos de bebidas e alimentos, o biólogo afirmou que o café é consumido em um momento de pausa, de reflexão, além de ser a segunda bebida mais consumida no mundo, só perdendo para a água.

“Além disso, a matéria-prima é gratuita”, diz, acrescentando que muitas cafeterias do Rio de Janeiro se ofereceram para fornecer a borra visando agregar a marca de sustentabilidade a seus negócios. “Não aceitamos porque nosso laboratório fica em Ribeirão e não seria sustentável fazer o transporte dos resíduos.”

E não vai faltar matéria-prima. O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de café, atrás apenas dos Estados Unidos. Consumiu 21 milhões de sacas de novembro de 2017 a outubro de 2018, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). O aumento em relação ao período anterior foi de 4,8%. O produto registrou alta também nas exportações: 35,2 milhões de sacas ou 14% a mais que em 2017.